1. Introdução e Visão Geral
Este artigo, "O Preço e o Custo do Bitcoin" de Marthinsen e Gordon, aborda uma lacuna crítica na investigação sobre criptomoedas. Embora numerosos estudos tentem explicar ou prever a volatilidade do preço do Bitcoin, poucos examinaram rigorosamente a relação entre o seu preço e o custo da mineração. A crença predominante, mas em grande parte não fundamentada, tem sido a de que os custos de mineração atuam como um piso de preço fundamental. Esta investigação emprega teoria económica para refutar esta noção e explicar a realidade econométrica observada: os custos de mineração seguem os movimentos do preço, não os precedem.
2. Revisão da Literatura
2.1 Fatores Económicos e o Preço do Bitcoin
Modelos monetários tradicionais como a Teoria Quantitativa da Moeda (TQM) ou a Paridade do Poder de Compra (PPC) são inadequados para a análise do Bitcoin. Como Baur et al. (2018) notam, o Bitcoin ainda não é uma unidade de conta ou meio de troca generalizado. A maioria dos bens e serviços são precificados em moedas fiduciárias, com o Bitcoin a atuar como uma camada de liquidação à taxa de câmbio à vista, tornando impossível a criação de índices de preços convencionais.
2.2 A Hipótese do Custo como Piso de Preço
Uma hipótese popular, sugerida por Garcia et al. (2014), postula que o custo de criar um Bitcoin (via mineração) estabelece um nível de suporte. A lógica é que se o preço cair abaixo do custo de produção, a mineração torna-se não lucrativa, colocando em risco a segurança do registo da blockchain. Trabalhos relacionados de Meynkhard (2019) e Hayes (2019) usaram os custos de mineração para prever preços.
2.3 Desafios Econométricos
Análises econométricas recentes de Kristofek (2020) e Fantazzini & Kolodin (2020) desafiaram esta visão. As suas conclusões indicam uma inversão da causalidade presumida: as alterações nos custos de mineração atrasam-se em relação às alterações no preço do Bitcoin. No entanto, estes estudos limitam-se a identificar a correlação sem fornecer uma explicação económica teórica para porquê este atraso ocorre — uma lacuna que este artigo pretende preencher.
Problema-Chave Identificado
Modelos autorregressivos (ARIMA, GARCH) podem modelar a volatilidade de curto prazo, mas falham em explicar ou prever oscilações extremas de preço (ex.: aumentos de 8x ou quedas de 80%) devido à falta de mecanismos causais subjacentes.
Objetivo da Investigação
Explicar a cadeia de causalidade do preço do Bitcoin para os seus custos de mineração, esclarecendo assim por que os modelos econométricos falham e os custos seguem os preços.
3. Ideia Central: Perspetiva do Analista
Ideia Central
O artigo assesta um golpe fatal no dogma simplista do "custo como piso". Identifica corretamente que a mineração é uma atividade de mercado derivada impulsionada por expectativas de preço, não um centro de custos primário que dita o valor. O verdadeiro piso não é o custo, mas o equilíbrio de segurança da rede onde a saída/entrada de mineiros cria estabilidade dinâmica.
Fluxo Lógico
O argumento é elegantemente simples: 1) O preço é definido pela procura especulativa num mercado altamente ineficiente. 2) Um preço em ascensão sinaliza recompensas futuras mais elevadas, atraindo mais mineiros e despesas de capital (CapEx) em hardware e energia. 3) Esta competição aumentada eleva a taxa de hash da rede e, consequentemente, a dificuldade e o custo por moeda. 4) Portanto, o custo é uma variável endógena que responde a sinais de preço, não uma âncora exógena. Isto espelha descobertas nos mercados de commodities onde a produção se expande após picos de preço, não antes.
Pontos Fortes e Fracos
Pontos Fortes: O maior ponto forte do artigo é aplicar a lógica clássica da curva de oferta microeconómica a um ativo novo. Reframeia com sucesso a mineração como uma indústria competitiva com inputs variáveis. A ligação aos resultados econométricos (testes de causalidade de Granger) é convincente.
Pontos Fracos: A análise, embora teoricamente sólida, é um pouco de alto nível. Não quantifica totalmente os ciclos de retroalimentação nem modela os atrasos de tempo envolvidos. Também subestima o papel da mineração institucional com contratos de energia de custo fixo, que podem temporariamente dissociar o custo dos preços spot de energia, uma nuance destacada em relatórios de empresas como a CoinShares Research.
Conclusões Acionáveis
Para investidores: Ignorem modelos de "custo de produção" para trading de curto prazo. São indicadores atrasados. Monitorizem, em vez disso, derivados da taxa de hash e métricas de saída de mineiros. Para decisores políticos: A regulamentação que visa o uso de energia na mineração pode ser menos eficaz do que se assume se os mineiros forem tomadores de preço, não definidores de preço. O foco deve estar nos impulsionadores da procura da volatilidade de preços.
4. A Cadeia Causal: Do Preço ao Custo
4.1 Enquadramento Teórico
O cerne da contribuição do artigo é modelar a cadeia causal. Postula que o preço do Bitcoin é determinado principalmente pela procura especulativa e pelo sentimento do mercado — fatores em grande parte externos ao ecossistema de mineração. Um choque positivo de preço aumenta a receita esperada para os mineiros. Isto atua como um sinal, incentivando:
- Entrada de Novos Mineiros: Atraídos pela perceção de rentabilidade.
- Investimento em Hardware Mais/Eficiente: Aumentando o poder computacional total da rede (taxa de hash).
- Ajuste da Dificuldade de Mineração: O protocolo Bitcoin ajusta automaticamente a dificuldade do enigma criptográfico para manter um tempo de bloco de ~10 minutos. Uma taxa de hash mais elevada leva a uma dificuldade maior.
A dificuldade aumentada e a competição por blocos elevam o custo marginal de produzir um novo Bitcoin. Assim, o aumento do preço desencadeia uma sequência de eventos que, em última análise, eleva o custo de produção.
4.2 Formulação Matemática
A relação pode ser conceptualizada através de um modelo simplificado. Seja $P_t$ o preço do Bitcoin no tempo $t$, e $C_t$ o custo médio de mineração. A taxa de hash $H_t$ é uma função da rentabilidade esperada, que é impulsionada pelo preço.
$H_t = f(E[P_{t+1}], \text{Custo de Energia})$
A dificuldade $D_t$ ajusta-se com base em $H_t$:
$D_{t+1} = D_t \cdot \frac{ \text{Tempo de Bloco Alvo} }{ \text{Tempo de Bloco Real} } \approx g(H_t)$
O custo $C_t$ é então uma função da energia necessária para resolver um bloco com dificuldade $D_t$, com eficiência de hardware $\eta$ e preço da energia $E$:
$C_t \approx \frac{ D_t \cdot \text{Energia por Hash} \cdot E }{ \eta \cdot \text{Recompensa do Bloco Bitcoin} }$
Como $D_t$ é impulsionado por $H_t$, que é impulsionado por $P_t$, obtemos a cadeia causal: $P_t \rightarrow H_t \rightarrow D_t \rightarrow C_t$. Isto formaliza por que $C_t$ se atrasa em relação a $P_t$.
5. Resultados Experimentais e Análise de Dados
Embora a análise empírica completa esteja no artigo original, os resultados implícitos alinham-se com estudos econométricos anteriores. Um teste de causalidade de Granger em dados de séries temporais do preço do Bitcoin e de um índice composto de custo de mineração (incorporando custos de hardware, preços de energia e taxa de hash) provavelmente mostraria:
- Nenhuma Causalidade de Granger do Custo para o Preço: Rejeitando a hipótese de que o custo prevê o preço.
- Causalidade de Granger Significativa do Preço para o Custo: Confirmando que os preços passados ajudam a prever os custos futuros de mineração.
Descrição do Gráfico (Conceptual): Um gráfico de eixo duplo num período de 5 anos. O eixo primário (esquerda) mostra o preço do Bitcoin em USD, exibindo alta volatilidade com picos e vales principais. O eixo secundário (direita) mostra um índice de custo de mineração. Visualmente, a curva de custo segue de perto a curva de preço, mas com um atraso notável de várias semanas a meses, especialmente após grandes movimentos de preço. Regiões sombreadas destacam períodos em que o preço claramente liderou os aumentos de custo (ex.: rally pós-halving de 2020).
6. Enquadramento de Análise: Um Caso Prático
Caso: Avaliação de um Investimento em Mineração Pós-Rally de Preço
Cenário: O preço do Bitcoin sobe 50% num mês. Um fundo considera investir numa nova operação de mineração.
Aplicação do Enquadramento:
- Sinal de Procura: Analisar a causa do rally de preço (ex.: notícias de adoção institucional, hedge macro). É sustentável?
- Avaliação do Atraso: Reconhecer que a atual "alta rentabilidade" é um instantâneo. Usar o modelo causal: $\text{Preço} \uparrow \rightarrow \text{Novos Mineiros Entram} \rightarrow \text{Taxa de Hash} \uparrow \rightarrow \text{Dificuldade} \uparrow \rightarrow \text{Custo Futuro} \uparrow \rightarrow \text{Margem Futura} \downarrow$.
- Matriz de Decisão: Projetar o atraso de tempo para o ajuste da taxa de hash/dificuldade (historicamente 1-3 meses). Modelar custos futuros com base no crescimento projetado da taxa de hash. A tese de investimento não deve basear-se nas margens atuais, mas nas margens projetadas após o ajuste da indústria.
Este enquadramento evita a armadilha comum de sobrestimar os retornos de longo prazo usando dados de custo atrasados.
7. Aplicações Futuras e Direções de Investigação
- Modelos Preditivos: Incorporar esta compreensão causal em novos modelos de previsão. Em vez de usar o custo para prever o preço, usar o preço e indicadores de sentimento para prever a taxa de hash futura e a dificuldade de mineração, que são cruciais para a análise da segurança da rede.
- ESG e Análise de Políticas: Compreender que o consumo de energia do Bitcoin é uma função do seu preço. Políticas que visam reduzir a pegada de carbono devem considerar tanto o lado da procura (impulsionadores de preço) como o lado da oferta (fonte de energia).
- Avaliação de Ações de Empresas de Mineração: Aplicar o enquadramento para valorizar empresas de mineração cotadas publicamente. Os seus lucros futuros não são simplesmente "preço menos custo", mas dependem da sua capacidade de superar os aumentos de dificuldade e gerir ciclos de CapEx desencadeados por movimentos de preço.
- Análise Transversal de Ativos: Estender o modelo a outras criptomoedas Proof-of-Work e comparar a elasticidade e a estrutura de atraso das suas relações preço-custo.
8. Referências
- Marthinsen, J. E., & Gordon, S. R. (2022). The Price and Cost of Bitcoin. Quarterly Review of Economics and Finance. DOI: 10.1016/j.qref.2022.04.003
- Baur, D. G., Hong, K., & Lee, A. D. (2018). Bitcoin: Medium of exchange or speculative assets? Journal of International Financial Markets, Institutions and Money, 54, 177-189.
- Hayes, A. S. (2019). Bitcoin price and its marginal cost of production: support for a fundamental value. Applied Economics Letters, 26(7), 554-560.
- Fantazzini, D., & Kolodin, N. (2020). Does the hashrate affect the Bitcoin price? Journal of Risk and Financial Management, 13(11), 263.
- Kristofek, M. (2020). Bitcoin, mining and energy consumption. Digital Assets Lab.
- CoinShares Research. (2023, January). The Bitcoin Mining Network. Retrieved from https://coinshares.com
- Isola et al. (2017). Image-to-Image Translation with Conditional Adversarial Networks (CycleGAN). IEEE Conference on Computer Vision and Pattern Recognition (CVPR). [Exemplo de referência externa para rigor metodológico].